Quinta-feira, 25 de Junho de 2015
(Foto: reprodução)
O Papa Francisco reconheceu nesta
quarta-feira que a separação de um casal, em alguns casos, é inevitável e
“moralmente necessária”, principalmente quando reina a violência doméstica, em
uma clara mensagem de abertura ante os desafios da família moderna.
“Existem
casos em que a separação é inevitável, inclusive moralmente necessária, para
tirar os filhos da violência e da exploração e até da indiferença e
estranhamento”, afirmou o Papa ante milhares de peregrinos reunidos na
audiência-geral de quarta-feira na praça de São Pedro.
“Peçamos
ao Senhor uma grande fé para ver a realidade com o olhar do Senhor”, enfatizou.
A
mensagem do Papa foi lançada um dia depois da apresentação no Vaticano do
documento que guiará em outubro o sínodo dos bispos de todo o mundo dedicado à
família e no qual propõe “acompanhar os divorciados e as famílias com filhos
gays”.
O Papa
falou das “feridas profundas” que provoca a separação aos filos e rejeitou o
termo “casais irregulares”.
“Não
estaremos anestesiados em relação às feridas da alma dos filhos? Quando mais se
tenta compensar com presentes, mais se perde o sentido das feridas da alma”,
afirmou.
“Como
acompanhar os casais em dificuldades?”, questionou ainda.
A
reflexão faz parte dos intensos debates que os bispos mantêm há mais de um ano
sobre como encarar os desafios das famílias contemporâneas, em particular a
delicada questão de autorizar a comunhão para os divorciados que voltaram a
casar, argumento que gera divisões.
A Santa
Sé revelou que conseguiu um “acordo comum” para propor um “caminho
penitencial”, sob a autoridade dos bispos, para reintegrar à Igreja católica os
divorciados que voltaram a se casar, algo que foi considerado um sinal de
abertura.
SINAIS DE ABERTURA
O
Vaticano reafirmou claramente na terça-feira a indissolubilidade do casamento,
mas abrindo caminho para a reflexão e encorajando os casais casados civilmente
a dizer sim na Igreja, no documento de trabalho do sínodo.
Este
“instrumentum laboris” de 147 artículos, apresentado terça-feira à imprensa,
aparece como uma síntese entre a abertura prudente de alguns prelados
ocidentais sobre os divorciados, os homossexuais, as uniões civis, e a
reafirmação da doutrina do casamento indissolúvel entre um homem e uma mulher.
Ele
reflete o profundo embaraço da Igreja, dividida entre conservadores,
especialmente nos países do sul, contra qualquer mudança, e uma linha mais
moderna, ansiosa por aberturas reais.
Toda
relação final do primeiro sínodo de outubro de 2014, incluindo três parágrafos
contestados que não atingiram a maioria de dois terços (sobre os divorciados e
os homossexuais), foi retomada e enriquecida com uma reflexão sobre centenas de
respostas fornecidas pelas dioceses a um questionário enviado por Roma.
Sob
condições muito estritas, “um caminho penitencial” poderia permitir divorciados
que voltaram a se casar civilmente a receber a Comunhão.
O
documento refere-se a um “consenso” em torno deste “caminho” para os
divorciados cujo primeiro casamento seria reconhecido como inválido e que já
estariam envolvidos em uma “relação irreversível”.
Um “amplo
consenso” também parece incidir sobre um melhor acesso aos procedimentos de
invalidação matrimonial, “eventualmente gratuito”, enquanto o processo atual é
pago e extremamente complexo.
O
documento também observa o aumento da coabitação e dos casamentos civis: “é
desejável promover caminhos para que as pessoas que coabitam ou que sejam
casadas no civil possam chegar ao casamento religioso.”.
O
documento menciona brevemente os homossexuais, citando “projetos de
acompanhamento pastoral” para a sua integração na Igreja. “Mas não há base para
estabelecer analogias entre as uniões homossexuais e o plano de Deus para o
casamento e a família”, reafirma o documento.
“Sobre o
casamento, entendemos como o casamento entre um homem e uma mulher”, realidade
“distinta” das uniões homossexuais, salientou o relator geral do sínodo, o
bispo italiano Bruno Forte.
No
entanto, a Igreja tem o “desafio pastoral” de garantir “que ninguém, incluindo
os homossexuais, ninguém se sinta excluído”, acrescentou o prelado.
O
secretário-geral do sínodo, o cardeal Lorenzo Baldisseri, se declarou contra a
“confusão” contemporânea sobre o conceito de família, citando o papa Francisco
para argumentar que “a supressão da diferença (entre homens e mulheres) é o
problema, não a solução”.
A posição
conservadora dos prelados africanos é visível em um parágrafo de texto, considerando
qualquer pressão “inaceitável” e denunciando a pressão de organismos
internacionais, que “condicionam a ajuda financeira aos países pobres à
introdução de leis que instituem o casamento entre pessoas do mesmo sexo”.
AFP

