Quinta-feira, 25 de junho-(06) de 2026
Matéria do Folhapress.
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Do total, R$ 911,6 milhões correspondem a internações
hospitalares. JOÃO MATTOS/ARQUIVO/JC |
A prevalência do sobrepeso ou obesidade pode ter um custo
equivalente a R$ 41,7 bilhões e R$ 44,6 bilhões por ano aos cofres públicos
brasileiros, o equivalente a 2% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional,
aponta análise conduzida pelo Instituto Cordial, realizador do Painel
Brasileiro da Obesidade.
O valor pode ultrapassar R$ 60,5 bilhões até 2033,
de acordo com o levantamento, financiado pela Novo Nordisk, farmacêutica
que produz as canetas Ozempic e Wegovy.
Para chegar aos números, os pesquisadores adaptaram ao
contexto brasileiro um modelo fiscal internacional desenvolvido pela
consultoria GMAS (Global Market Access Solutions), cruzando dados de saúde,
mercado de trabalho e arrecadação tributária.
A análise cruzou microdados da última edição da PNS
(Pesquisa Nacional de Saúde), de 2019, com variáveis de gênero, idade e
mortalidade para medir o peso da obesidade em três frentes: custos no sistema
de saúde, reflexos na renda e empregabilidade no mercado de trabalho e o
impacto fiscal nas contas do governo.
Para chegar aos valores finais, os pesquisadores aplicaram
modelos de regressão estatística que compararam os indicadores reais de 2024
com um cenário hipotético de "prevalência zero" da enfermidade. O
maior bloco trata dos custos de saúde associados à doença e suas
comorbidades, que alcançam R$ 29,56 bilhões anuais.
Em seguida, vem a perda de arrecadação tributária, estimada
em R$ 9,94 bilhões -dos quais R$ 7,35 bilhões são em impostos diretos, e R$
2,59 bilhões em indiretos. Gastos com invalidez somam R$ 6,05 bilhões por ano,
considerando que mais de 240 mil aposentadorias no Brasil estão associadas às
condições.
Dentro do sistema público de saúde, os custos diretos
associados à obesidade já ultrapassam R$ 1,89 bilhão ao ano. Do total, R$
911,6 milhões correspondem a internações hospitalares e R$ 983,8 milhões, a
gastos com medicamentos.
Luís Fernando Villaça Meyer, diretor de operações do
Instituto Cordial, diz que esse valor, na verdade, chega a R$ 29,56 bilhões se
forem avaliadas outras doenças associadas à obesidade, como hipertensão,
diabetes e dislipidemias, e os custos associados a elas.
Pesquisas avaliadas pelos autores apontam que, em 2022, o
Brasil gastou US$ 654 milhões (cerca de R$ 3,4 bilhões) com doenças crônicas
não transmissíveis associadas a sobrepeso e obesidade no SUS (Sistema Único de
Saúde), com destaque para doenças cardiovasculares, respiratórias e neoplasias.
Cada ponto adicional no IMC (Índice de Massa Corporal) médio
da população representa um custo extra de R$ 387,3 milhões ao sistema público
de saúde por ano, afirma o estudo. Outro dado levantado é a disparidade do
impacto entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Segundo a pesquisa,
mulheres com obesidade recebem salários entre 4% e 9% menores do que mulheres
sem a condição. A diferença pode chegar a 15%.
A análise dos microdados da PNS de 2019 mostrou que a
participação de mulheres na força de trabalho cai progressivamente conforme o
IMC aumenta, mas o padrão não se repete entre homens com a mesma intensidade.
"O impacto cultural no corpo das mulheres é muito pior. Isso no mercado de
trabalho se reflete em salários mais baixos também, cargos piores, e isso acaba
impactando na massa salarial das pessoas", afirma Meyer, complementando
que isso também afeta a arrecadação tributária.
Para os homens, parte dos modelos analisados mostra que a
obesidade não apresenta efeito estatisticamente significativo sobre salários,
enquanto em outros, está associada a melhores resultados. Para Meyer, não
necessariamente a obesidade em homens está associada ao sucesso na carreira,
mas talvez homens em posições de liderança apresentam maior índice de
obesidade.
O estudo conclui que investir em prevenção e
tratamento é uma estratégia fiscal, não apenas sanitária. Para os autores,
pequenas reduções na prevalência da doença têm efeito imediato nas contas
públicas: cada 1% de queda nos índices de obesidade gera uma economia de R$
444,6 milhões por ano.
Para que esse cenário seja alcançado, Meyer reforça a
necessidade do investimento em políticas públicas. "A obesidade já está
sendo entendida como doença e tem que ser lidada no contexto da saúde pública.
Então, sua resposta vai no caminho de o que a gente tem que fazer na saúde
pública."
Segundo ele, o caminho passa pela atualização das linhas de
cuidado nacionais, envolvendo equipes multiprofissionais e a capacitação desses
profissionais para o acolhimento da pessoa com obesidade. "A palavra de
ordem agora é implementação de política pública", afirma.
Por: Folhapress