Sábado, 25 de julho-(07) de 2026
Embora o Estado venezuelano não divulgue um número
oficial, projetos independentes apontam que há milhares nessa situação
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| (Leonardo Fernandez Viloria/Reuters – 01.07.2026) |
Yeison já não sabe mais o que dizer ao pai, de 86 anos, que
todos os dias acende uma vela, reza e pede pelo retorno de Jhonattan Lamus, seu
outro filho, vítima dos terremotos gêmeos que atingiram a Venezuela há um mês e
desaparecido até hoje.
“Há muita ansiedade, muito medo, uma tristeza de não saber
qual resposta dar”, diz o educador, que ainda busca o irmão Jhonattan em
necrotérios, hospitais, clínicas e albergues. “É lamentável.”
Como essa família, outros milhares continuam em busca de
vítimas dos sismos que estão desaparecidas. Embora o Estado venezuelano não
divulgue um número oficial e estimado de pessoas desaparecidas, projetos
independentes apontam que há milhares nessa situação.
As plataformas online Venezuela Te Busca, Venezuela Reporta
e Desaparecidos, nas quais as famílias podem registrar os dados de seus
parentes, mostram, respectivamente, 17 mil, 40 mil e 29,5 mil desaparecidos.
São pessoas que podem estar feridas em hospitais, desorientadas em casas de
acolhimento, mas, especialmente, ainda sob os escombros das zonas mais
atingidas.
O que revela que o número oficial de ao redor de 5.400
mortos é, de longe, subnotificado. E indica que esses terremotos podem ser o
segundo evento do tipo mais mortal em toda a América Latina desde 1980, atrás
apenas da tragédia no Haiti, em 2010, quando morreram 316 mil. Até aqui, o
segundo no ranking neste período é o desastre no México, em 1985, que matou ao
menos 9.500 pessoas.
O Ministério para a Comunicação e Informação da Venezuela,
responsável por compartilhar as informações da tragédia, não responde a
questionamentos sobre o porquê não há um número estimado e oficial de
desaparecidos, dado que neste ponto as famílias já estão declarando seus
parentes nessa condição perante o Corpo de Investigação Penal e Criminalística.
Há uma semana, o número dois do regime, o presidente da
Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão da líder interina, Delcy, disse que
falar em desaparecidos seria especular.
“Nós temos muito medo de exigir uma resposta das
autoridades, porque aqui isso já não funciona”, diz o venezuelano Yeison, que
fala por telefone. “Quando alguém se pronuncia, pode haver retaliação contra a
família, e é isso que vivemos tristemente como venezuelanos. Eles seguram o
poder com unhas e dentes.”
Jhonattan, o irmão de Yeison, foi um dos mais de 160
venezuelanos deportados pelos Estados Unidos no mesmo dia dos terremotos. Eles
eram mantidos em um prédio na região costeira de La Guaira que ruiu. Quando a
reportagem acompanhou a família em seu périplo para acessar o local poucos dias
após o terremoto, não se sabia quantos dos deportados haviam sobrevivido e
quantos, morrido.
Hoje, tampouco se sabe. O Serviço de Inteligência
venezuelano, o Sebin, disse à família que Jhonattan possivelmente sobreviveu,
deixou o local desorientado e agora está perdido. O Estado também tentou,
segundo a família, entregar-lhes dois corpos como se fossem o de Jhonattan.
“O primeiro cadáver era o de uma mulher. O segundo, o de um
homem que tinha a arcada dentária completa, e sabemos que meu irmão não tinha
quatro dentes. Eles insistiam que era ele, mas não aceitamos.”
Saber que há tantas outras pessoas na mesma situação é
triste, mas ao mesmo tempo cria um processo coletivo que ajuda a apaziguar a
dor, afirma o venezuelano-brasileiro Daniel Medina, cujo pai, Félix Tovar,
também continua desaparecido.
“Ainda assim, tudo só nos remete a uma ausência muito grande do Estado, que
vira as costas para o povo. Queríamos uma resposta estatal mais contundente,
uma resposta digna”, diz ele.
Dignidade, aliás, é uma palavra constante no vocabulário dos
familiares de vítimas. Dizem eles que, após a tragédia dos terremotos tirar a
vida de seus parentes, o Estado lhes tirou a dignidade ao não ajudá-los a
encontrar essas vítimas e encerrar esse processo.
Félix Tovar estava hospedado em uma pousada na região de La
Guaira. Por três semanas, a família buscou seu corpo nos escombros de uma
padaria onde, acreditava-se, ele estava. Equipes de resgate brasileiras
ajudaram na busca. O corpo não foi encontrado. A última informação é um sinal
de celular que mostra que Félix esteve na área.
Como encerrar esse processo? É possível quiçá correto
dar espaço ao luto se ainda não se sabe o paradeiro de uma pessoa amada?
“Mantemos a procura porque a esperança que fica é a de que
ele possa estar inconsciente em algum hospital. Mas, se isso não acontecer, e
ainda não sabemos por quanto tempo esperar, em algum momento precisaremos fazer
um encerramento ou um ritual para a vida do meu pai”, diz Daniel, que mora na
vizinha Colômbia.
Por: Folhapress