Sábado, 21 de março-(03) de 2026
Matéria de *Carlos Bozzo Junior com Folhapress.
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| Foto: Renato Rocha Miranda/Divulgação TV Globo |
Morreu, na madrugada deste sábado (21), Juca de Oliveira, ator,
diretor, escritor e dramaturgo que brilhou nas artes cênicas brasileiras pelo
seu rigor dramático ímpar, aos 91 anos. Sua carreira de sete décadas se
estendeu dos palcos do Teatro Brasileiro de Comédia e do Teatro de Arena, de
forte viés político na década de 1960, às dezenas de seriados e novelas na TV,
como em “Nino, o Italianinho”, “Saramandaia” e “O Clone”.
O
ator tinha feito aniversário na última segunda-feira (16), e estava internado
numa UTI do Hospital Sírio-Libanês desde a sexta (13), tratando uma pneumonia e
um problema cardíaco.
Ele
deixa a mulher, a musicista Maria Luiza de Faro Santos, a filha do casal,
Isabella Faro de Oliveira.
Juca
de Oliveira nasceu em 16 de março de 1935, na cidade de São Roque, a 70 km da
capital paulista. Batizado José de Oliveira Santos, o roquense deixou a pequena
cidade, para orgulho do pai, Antonio de Oliveira Santos, e da mãe, Josefina,
para cursar a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo São
Francisco, no centro de São Paulo.
Contudo,
logo se sentiu deslocado no tombado edifício das Arcadas. Seguiu estudando até
o terceiro ano do curso, equilibrando o trabalho numa banco. Mas após fazer um
teste vocacional, buscou dar vazão à sua inclinação para a dramaturgia.
Abandonou
o direito em 1958, aos 22, e migrou para a Escola de Arte Dramática de São
Paulo, a EAD. Lá, conheceria alguns grandes parceiros de geração, entre eles,
Glória Menezes e Aracy Balabanian. Como parte de um grupo amador, encenou “Frei
Luis de Sousa”, do português Almeida Garrett, em 1960 –não fez sucesso, mas
chamou a atenção do diretor Flávio Rangel.
Rangel
o convidou para ingressar no TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, onde, sob
direção dele –outro dissidente do direito na USP–, estrelou a peça “A Semente”,
de 1961, de Gianfrancesco Guarnieri.
O
espetáculo retratava o cotidiano de operários de uma fábrica de São Paulo, e
Juca de Oliveira viveu Cipriano, um dos personagens militantes, ao lado de
nomes como Cleyde Yáconis, Stênio Garcia, Nathália Timberg, Flávio Migliaccio e
Leonardo Vilar. Este último já era elogiado à época pelo trabalho em “Pedreira
das Almas”, de Jorge Andrade, que foi uma espécie de inspiração para “A
Semente”.
Por
seu teor, a peça foi vetada dias antes da estreia, em abril daquele ano, pela
Secretaria de Segurança Pública do Estado. Os censores acusavam o espetáculo de
ter a “intenção de demolir o regime democrático brasileiro”. A montagem foi
liberada pouco depois, por insistência do diretor e do dramaturgo, mas apenas
para aquela temporada.
Ainda
em 1961, o ator recebeu o afamado prêmio Saci, como melhor ator coadjuvante,
por sua interpretação de Happy Lomman, filho do personagem principal de “A
Morte de um Caixeiro-Viajante”, de Arthur Miller, na montagem do TBC, também
sob direção de Rangel. Nessa primeira versão brasileira da peça, também atuavam
Dionísio Azevedo, Yáconis e Villar.
Juca
de Oliveira participou, no TBC, da primeira montagem da obra-prima “O Pagador
de Promessas”, de Dias Gomes, antes de se juntar ao Teatro de Arena, no centro de
São Paulo, e trabalhar em outros marcos nacionais –como “Eles Não Usam
Black-Tie” e “O Filho do Cão”, ambas de Guarnieri–, e com colegas como o
diretor Augusto Boal, Flávio Império e Paulo José. Com o grupo, comprou o
espaço de seu idealizador, o também diretor José Renato.
Destacou-se,
então, em montagens como “A Mandrágora”, de Maquiavel, e da clássica comédia “O
Melhor Juiz, o Rei”, do espanhol Lope de Vega, ambas em 1963.
O
Arena virou referência militância política e nos protestos contra a censura, com
artistas perseguidos pela ditadura. Juca era da esquerda comunista e, por
ocasião do golpe militar, em 1964, decidiu se autoexilar na Bolívia com
Guarnieri. Mas ficaram pouco tempo por lá, já que o colega decidiu voltar após
a prisão do pai.
Em
várias entrevistas, Juca disse que era stalinista, se manifestava contra o
regime militar e foi preso inúmeras vezes. Mas, como outros de sua geração,
afastou-se do culto ao ditador russo após virem à tona os sangrentos segredos
da União Soviética de então.
O
fato é que, na mesma época em que voltava da Bolívia, acabou começando seu
trabalho nas telinhas, assinando com a TV Tupi. Começou, em 1964, como o
personagem Jorge, em “Gutierritos, o Drama dos Humildes” e, no mesmo ano, na
novela “Quando o Amor É Mais Forte”.
Seguiram-se
diversas produções, como “A Outra” e “Estrelas no Chão”, mas seu primeiro
grande sucesso na TV foi com o personagem-título de “Nino, o Italianinho”,
exibida entre 1969 e 1970, de Geraldo Vietri e Walther Negrão.
Na
trama, ele vivia um imigrante italiano simples e de bom coração, dono de uma
mercearia no Bexiga, em São Paulo, e que tenta conquistar sua vizinha, Natália
–papel de Bibi Vogel–, sem notar que é outra mulher, Bianca –Aracy Balabanian–
quem se derrete por ele.
Sem
nunca deixar o trabalho nos palcos, seguiu a carreira televisiva em obras dos
maiores nomes da época, como Janete Clair, Walter George Durst e Lauro César
Muniz, além de ter dirigido algumas atrações, como a novela “Irmãos Corsos”.
Sempre
que podia, Juca ressaltava a importância exercida pelo diretor e amigo Antunes
Filho em sua carreira, em grande parte construída por suas brilhantes atuações
em peças como “Júlio César”, a partir do texto de Shakespeare, e “A Cozinha”,
do dramaturgo britânico Arnold Wesker.
Em
1968, Juca de Oliveira assumiu também a presidência do Sindicato dos Atores de
São Paulo, conseguindo vitórias importantes para a categoria. Entre elas, a
regulamentação do ator, a quantidade máxima de tempo de gravação e uma lei,
redigida por ele, estabelecendo que o texto teria que ser liberado para
memorização, no mínimo, 72 horas antes da gravação.
Nessa
ocasião, o ator roquense atinge o ápice de sua carreira nos palcos como o
protagonista de “Um Edifício Chamado 200”, em 1972, de José Renato, Paulo
Pontes e Milton Moraes, peça pela qual foi agraciado com o prêmio Molière de
melhor ator.
Sua
atuação no monólogo “Corpo a Corpo”, de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha,
dirigido por Antunes Filho, também ajudou a elevá-lo a uma posição de destaque
nos palcos –ele foi novamente dirigido por Antunes Filho, em “Ricardo 3º”, de
Shakespeare, em 1975.
Em
paralelo, depois da Tupi, começou a trabalhar na Globo em 1973, onde faria seus
trabalhos mais conhecidos do grande público. O começo foi em “O Semideus”,
daquele ano, mas ele gostava de destacar o papel de João Gibão, na trama de
realismo mágico de “Saramandaia”, de 1976, com texto de Dias Gomes e direção de
Walter Avancini.
Na
mesma época, começou a se consagrar também como escritor de seus próprios
papéis. Iniciou a dobradinha em 1979, com a peça “Baixa Sociedade”, que também
estrelou.
Essa
comédia de costumes sobre alpinismo social foi reencenada no começo do ano e
está em cartaz, até abril, no Teatro Renaissance, em São Paulo, com Luiz
Fernando Guimarães e direção de Pedro Neschling. “O mundo mudou muito em 50
anos, mas a essência do homem continua a mesma, logo os tropeços são os
mesmos”, disse Juca à Folha, em janeiro, por ocasião da nova montagem.
Em
1982, estreou de sua lavra “Motel Paradiso”, e, em 1987, a consagrada “Meno
Male”, que lhe rendeu o prêmio Governador do Estado de melhor autor. Depois,
vieram “Qualquer Gato Vira-Lata Tem uma Vida Sexual Mais Saudável que a Nossa”,
de 1990; “As Atrizes”, de 1991; e “Caixa 2”, de 1997, montagem de grande
sucesso que ficou seis anos em cartaz, sob a direção de Fauzi Arap, e adaptada
para o cinema em 2007, com direção de Bruno Barreto,
Não
faltaram também alguns trabalhos no cinema, com destaque maior para “O Caso dos
Irmãos Naves”, de 1967. Sob a direção de Luiz Sergio Person, dividiu com Raul
Cortez o protagonismo da trama: dois homens são acusados injustamente de
assassinato, sofrem torturas para confessar o crime e enfrentam um terrível
julgamento.
Na
TV, passaria ainda por outras emissoras, como a Bandeirantes –onde fez “Ninho da
Serpente”, de Jorge Andrade, e “A Idade da Loba”, de Alcione Araújo–, o SBT
–estrelando “As Pupilas do Senhor Reitor”, de Lauro César Muniz, e “Os Ossos do
Barão”, também de Andrade–, e Record, com “Vidas Cruzadas”, de 2000.
Voltaria
para a Globo em 1993, como professor Praxedes de “Fera Ferida”, de Aguinaldo
Silva, e enfim, ficaria marcado como o engenheiro genético dr. Augusto Albieri,
em “O Clone” –um sujeito que, arrasado pela morte do afilhado, decide clonar o
irmão gêmeo do rapaz, na novela de Glória Perez, de 2001.
Em
2012, interpretou o cruel vilão Santiago Moreira, pai e mentor da vilã
Carminha, papel de Adriana Esteves, na novela “Avenida Brasil”, de João Emanuel
Carneiro. Em “Flor do Caribe”, de 2013, novela de Walther Negrão, o ator atuou
na pele do personagem judeu Samuel Schneider, que viveu na Europa na época do
nazismo e que vivia traumatizado e atormentado pelo passado. Em 2017, atuou em
“O Outro Lado do Paraíso” como o empresário e vilão Natanael Mello.
Participou
também das minisséries como “Mad Maria”, de 2005, como Stephan Collier;
“Amazônia, de Galvez a Chico Mendes”, de 2007, como José de Carvalho; e “Os
Experientes”, de 2015, como Napoleão Roberto.
Nas
mais de 60 peças encenadas por Juca de Oliveira, destacam-se ainda “De Braços
Abertos”, de 1984, texto de Maria Adelaide Amaral, direção do José Possi Neto,
na qual o ator contracenou com Irene Ravache durante quatro anos, sucesso de
púbico e crítica.
Em
1991, a comédia “Procura-se um Tenor”, do americano Ken Ludwig, com direção de
Bibi Ferreira, outro um grande sucesso. No drama “A Quarta Estação”, de 1995,
de Israel Horovitz, Juca de Oliveira dividiu o palco com Denise Fraga, sob
direção de Fauzi Arap, em mais um resultado arrebatador.
Há
quatro anos, ainda voltou aos palcos com uma remontagem de “A Flor do Meu
Bem-Querer”, originalmente de 2003 –peça na qual fazia uma alusão ao suposto
filho fora do casamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A crítica
política, aliás, nunca saiu de seus textos, como deixou claro “Mãos Limpas” de
2019.
Nele,
Juca vivia um ex-advogado que virou traficante desiludido com a Justiça
brasileira. O ator Fúlvio Stefanini era um senador “da esquerda” envolvido com
propinas e que aspirava à presidência. No desenrolar do texto, são citados no
palco nomes como os dos ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli, do Supremo
Tribunal Federal, dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff e outros.
Sérgio
Moro também era lembrado várias vezes de forma positiva, quando o personagem de
Juca ameaçava revelar os esquemas de corrupção do senador interpretado por
Fúlvio.
Juca
seguia vivendo também do trabalho numa fazenda de gado para corte em Itapira,
no interior paulista.
Por:
* CARLOS BOZZO JUNIOR (FOLHAPRESS)















