Domingo, 16 de novembro-(11) de 2025
Matéria do G1
Uma nova pesquisa Ipsos-Ipec, realizada a pedido do
Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), confirma um movimento que já
aparecia no comportamento cotidiano de milhões de brasileiros: 64% dos adultos
afirmaram não beber em 2025, um avanço expressivo em relação aos 55%
registrados em 2023.
Entre os mais jovens, a mudança é ainda mais
acentuada. A abstinência passou de 46% para 64% entre pessoas de 18 a 24 anos e
de 47% para 61% no grupo de 25 a 34 anos.
Esses números ajudam a explicar histórias como a de
Gabrielle Ribeiro, que aos 23 anos decidiu parar de consumir bebidas
alcoólicas. Reuniu todas as garrafas que tinha em casa e as colocou dentro de
um saco de lixo.
A influenciadora digital trocou as festas por
noites de sono, os dias de ressaca por trilhas matinais e os copos de drinks
por suplementos. Perdeu 16 quilos, passou a economizar até R$ 300 por semana e,
de quebra, conquistou milhares de seguidores ao compartilhar a sua história nas
redes sociais.
“Parar de beber foi a melhor coisa que eu fiz por
mim. É mais interessante acordar no domingo e postar foto de uma medalha de
corrida do que ficar com aquela ressaca moral”, conta.
Os dados também reforçam essa mudança no perfil do
consumidor: o número de pessoas que ingerem bebida alcoólica uma vez por semana
ou a cada quinze dias caiu 6 pontos percentuais na comparação com 2023. Entre
quem ainda bebe, 39% consomem de uma a duas doses por ocasião.
Abaixo, entenda por que o país está bebendo menos,
como esse comportamento aparece na vida das pessoas e de que forma o mercado se
reorganiza para atender o novo consumidor brasileiro.
Por que os jovens bebem menos?
A geração Z é a que menos consome álcool. Dados de
uma pesquisa da MindMiners feita com 3 mil pessoas indicam que, entre os jovens
da geração, de 16 a 30 anos, apenas 45% afirmam beber.
O álcool perdeu o papel de símbolo social entre os
mais novos, que preferem investir tempo e energia em experiências ligadas à
saúde, bem-estar e estabilidade emocional.
Entre os que não bebem:
• 58%
dizem simplesmente não ter interesse;
• 34%
não gostam do sabor;
• 30%
preferem evitar os efeitos físicos e emocionais da bebida;
• 19%
citam a busca por qualidade de vida;
• 17%
mencionam razões religiosas.
O levantamento da MindMiners também relaciona a
queda de consumo a questões financeiras. Entre os motivos apontados pelos
jovens para reduzir o consumo, aparecem frases como: "Estou gastando muito
dinheiro" e "Menos gasto com bebidas".
Crise ou oportunidade?
De maneira geral, a mudança no comportamento dos
consumidores não necessariamente representa uma ameaça à indústria de bebidas,
mas sim uma reconfiguração do mercado, impulsionada por consumidores mais
exigentes, moderados e abertos à experimentação.
Dados da Nielsen, por exemplo, indicam que o
segmento de cervejas sem álcool é o que mais cresce no país, com desempenho
anual três vezes superior ao das cervejas tradicionais.
Mesmo entre quem ainda consome álcool, há sinais de
mudança: 41% dos entrevistados disseram ter alterado a frequência de consumo no
último ano, e 43% pretendem reduzir ainda mais, motivados principalmente por
saúde e questões econômicas, segundo dados da MindMiners.
Outro indicativo importante da mudança no perfil de
consumo é a prática que ficou conhecida como "zebra stripe" — que é
quando o consumidor alterna entre bebidas com e sem álcool. A prática, segundo
especialistas, tem ganhado força no mercado, especialmente entre os jovens.
"A pessoa vai intercalando e, no final da
noite, tomou seis cervejas, mas só três tinham álcool (...) isso permite
prolongar o tempo de consumo sem perder o controle, reforçando a ideia de
equilíbrio, que não significa restrição total, mas moderação consciente",
explica o diretor de estratégia da Ambev, Gustavo Castro.
Além da moderação, o baixo consumo tem impulsionado
a valorização da experiência e da qualidade. Os consumidores estão dispostos a
pagar mais por bebidas premium, que oferecem sabor, sofisticação e identidade.
"A busca por rótulos premium, como os uísques
single malt (que cresceram 10% nos últimos três anos), mostra que o prazer está
menos na embriaguez e mais na descoberta sensorial, se tornando até mesmo um
hobby", afirma Maurício Porto, proprietário do bar Caledonia.
Por: G1

