Sábado, 11 de abril-(04) de 2026
Especialistas entendem medida como forma de tentar diminuir
o impacto das decisões negativas
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(Joédson Alves/Agência Brasil) |
Com a aproximação das eleições de outubro, o governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem intensificado a aposta em medidas
voltadas à classe trabalhadora e à população de baixa e média renda, em uma
estratégia vista como um “pacote de bondades” para tentar ampliar a
popularidade da gestão antes do pleito.
Entre as iniciativas colocadas em discussão pelo Palácio do
Planalto estão propostas de apelo popular, como o avanço do debate sobre
mudanças na escala de trabalho 6×1 e a liberação de até R$ 17 bilhões do FGTS
(Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para ajudar trabalhadores endividados.
Também se discute a possibilidade de revisar medidas econômicas que enfrentam
forte rejeição popular, como a chamada “taxa das blusinhas” — imposto sobre
compras internacionais de até US$ 50.
Para especialistas, o movimento segue uma lógica comum em
períodos pré-eleitorais. Segundo o advogado especialista em direito contratual
e tributário Danniel Fernandes, decisões que trazem benefícios concretos à
rotina da população podem influenciar diretamente o humor do eleitorado.
“Existem essas propostas que melhoram a rotina do
trabalhador e costumam ter boa aceitação. Mas existe um detalhe que também é
importante: o eleitor costuma esperar o resultado concreto para tomar essa
decisão do voto. Ou seja, não basta prometer, tem que ter um avanço real. Se a
medida realmente acontecer ou estiver próxima de acontecer, ela pode melhorar a
avaliação do governo”, afirmou.
Propostas em análise
A movimentação ocorre no momento em que o governo tenta
neutralizar desgastes provocados por medidas econômicas mal recebidas pela
população. Pesquisa divulgada em março pela Atlas Intel, por exemplo, apontou
que, para 62% dos brasileiros, a “taxa das blusinhas” foi o maior erro
do governo Lula.
Atualmente, compras internacionais de pequeno valor são
taxadas com imposto de importação de 20%, além da incidência do ICMS estadual,
de 17%.
Outra frente explorada pelo governo é a discussão sobre o
fim da escala tradicional de seis dias de trabalho para um de descanso. A
proposta abriria espaço para modelos como 5×2 e 4×3, formatos já debatidos ou
testados em outros países.
Nos últimos dias, Lula prometeu que vai enviar ao Congresso
Nacional um projeto de lei em caráter de urgência para tentar acelerar a
discussão do assunto.
“A ideia é a redução da jornada sem redução do salário. O
que significa um pequeno aumento de ganho de produtividade. Em vez de ter
prejuízo, ele vai continuar com o mesmo salário, porque a diferença é
produtividade. A tecnologia permitiu que produzisse mais, portanto o
trabalhador ganha um pouco mais”, afirmou o presidente durante entrevista.
Além disso, segundo apurou a RECORD, o governo
prepara duas medidas provisórias. A primeira iniciativa prevê a liberação de
aproximadamente R$ 7 bilhões que permanecem retidos nas contas de trabalhadores
que aderiram ao saque-aniversário e foram demitidos sem justa causa entre
janeiro de 2020 e dezembro de 2025. A segunda ação para liberar entre R$ 9
bilhões e R$ 10 bilhões do FGTS para trabalhadores endividados quitarem débitos
de cartão de crédito.
Resistência política e econômica
Apesar do apelo popular pelo fim da escala 6×1,
especialistas ponderam que a medida ainda enfrenta resistências políticas e
econômicas e depende de amplo debate sobre seus impactos para empresas e
trabalhadores.
O cientista político Magno Karl afirma que o sucesso
eleitoral da estratégia dependerá não apenas do anúncio das medidas, mas da
capacidade do governo de transformá-las em resultados concretos antes
do pleito.
“A estratégia de compensar erros de gestão com sinalizações
redistributivas é antiga na política brasileira, mas nem sempre funciona. A
escala 6×1 tem apelo emocional relevante, especialmente junto ao eleitorado de
base do PT, mas não resolve o problema da maioria dos brasileiros — que hoje se
encontra trabalhando no mercado informal —, nem da baixa credibilidade
econômica que a taxação das blusinhas e outras medidas recentes criaram. São
públicos e lógicas diferentes”, avaliou.
Para ele, embora o pacote tenha potencial de melhorar a
imagem do governo, também pode gerar efeito contrário caso seja
interpretado como uma tentativa meramente eleitoral.
“O pacote de bondade é uma tentativa de buscar popularidade
para um governo que se aproxima do seu fim com poucas marcas próprias, mas, a
depender de como esse pacote será explicado à população, ele pode acabar
reforçando a percepção que o governo quer combater: a de um governo que retira
com uma mão e distribui com a outra”, concluiu.
Por: R7

