OPINIÃO: HULK MOSTROU PARA OS BRASILEIROS O MAPA DA ´PARAÍBA
Terça, 20 de Maio de 2014
Pouco se fala da Paraíba no cenário nacional. Estado incrustrado
no Nordeste brasileiro, apesar de algum crescimento, continua abandonado,
esquecido pelos brasileiros. O que vem à mente quando há qualquer menção de lá
é a mulher masculinizada, o tipo “Paraíba mulher macho”, estilo das esposas de
cangaceiros dos anos 30, que, por sinal, nem fizeram da Paraíba o palco de seus
balaços.
Estes revoltosos, liderados por Lampião, tinham nos olhos o
sangue da vingança. Reagiam de forma enlouquecida contra a sociedade patriarcal
da época, matando por encomenda, traçando destinos de acordo com seus
julgamentos. Hoje, não seria estranho se eles estivessem também se revoltando
contra a Copa, tentando fazer barricadas em estádios pelos sertões.
Mas há um tipo de cangaço que exala forças positivas, tendo a
coragem de deixar a tirania de lado, e superando a exclusão com o talento e a
determinação. Paraíba, no Brasil, muitas vezes virou sinônimo de “baiano”.
Principalmente em regiões fora do Nordeste.
Para muitos é como um estado africano, de tão distante. De lá se
sabe que governador foi cassado; que o pai dele, outro governador, atirou no
antecessor; que o campeonato está parado por supostas irregularidades nas
eleições; que há pobreza, que a violência aumentou.
Não leva em conta, no entanto, o que se passa na cabeça e no
coração deste povo, reduzido a rótulos preconceituosos e sem sentido. Justo em
um país que, por alguns dias apenas, se engaja em campanhas publicitárias
contra o racismo e depois contribui para a exclusão, como se fosse feito de
autômatos que apenas foram na onda.
Mal se sabe que na Paraíba nasceram Herbert Vianna, Assis
Chateubriand, Ariano Suassuna, Elba Ramalho, José Lins do Rego e tantos outros
nomes da cultura nacional. A impressão é de que eles foram adotados por outros
estados. O próprio Nordeste parece discriminar a Paraíba.
Eis que então surge Hulk, o “monstro” paraibano, como um herói
transfigurando raiva de tanta exclusão e, em um rompante de fúria e esperança
deixa a Paraíba e o país para ser aceito. Sorte dele que, no exterior,
brasileiro é tudo a mesma coisa. Para um americano, paulista e nordestino dão
no mesmo.
Hulk tem a alma do retirante que deu a volta por cima. Carrega a
mensagem santificada do cangaço, só que de outra maneira. Com os pés. Seu corpo
rasgou os trajes protetores de couro. Ele jogou fora os chapéus, tirou as
sandálias, os casacos, os cintos, qualquer munição, livrou-se das calças
remendadas para colocar calções.
Até na seleção ainda é pouco reconhecido. Afinal, em que estado
nasceu o craque? Mas chegou à seleção. Acendeu outra luz no desconhecido mapa
da Paraíba. E, quando sua canhota portentosa, tão certeira quanto o tiro do
cangaceiro, definir jogos na Copa do Mundo, porque ele tem alma de definidor,
finalmente a massa vai se render. Então todos os brasileiros terão orgulho em
dizer, sem precisar do estímulo de campanhas publicitárias: “Somos todos paraíbas”.
R7

