Quinta-feira, 21 de Abril de 2016.
Joanna Giannouli, de 27 anos,
sofre de uma condição que determinou que ela nascesse sem vagina, colo do útero
e útero. Ela explica os desafios de viver com uma síndrome que afeta uma em cada
5 mil mulheres no mundo:
“Quando
fui com minha família pela primeira vez ao médico, meu pai tentou mostrar
coragem. Minha mãe, por outro lado, não aceitou bem. Ela se culpou pelo que
tinha acontecido e foi muito doloroso vê-la daquela maneira.
Não
conversamos muito sobre o assunto pelos primeiros cinco anos. Eu não conseguia.
Senti-me destruída e incrivelmente fraca. Minha mãe acredita que pode ter feito
algo de errado durante a gravidez. Eu já expliquei que não foi isso, apenas
genes. Minha condição é estigmatizada. E o mais doloroso foi quando meu
parceiro me abandonou depois de descobrir o que tinha.
Estava noiva quando tinha 21
anos, vivendo em Atenas. Quando contei a ele sobre minha condição, ele terminou
comigo. Tudo isso agora pertence ao passado e estou bem agora. Felizmente,
pelos últimos cinco anos estive em um relacionamento amoroso estável. Ele soube
desde o início e escolheu ficar comigo. Sabe que nosso futuro não terá
crianças. Ele está OK com isso e eu também. Sou uma das pessoas mais
afortunadas (com essa condição). Minha mãe me levou ao médico quando eu tinha
14 anos porque eu não estava menstruando. Ele não me examinou porque não queria
tocar minha genitália e, quando fiz 16 anos, fui enviada a um hospital para um
check-up.
Os médicos descobriram que eu
não tinha canal vaginal e sofria da Síndrome de Rokitansky. Tinha nascido sem
uma vagina funcional e os médicos tiveram que construir uma para mim para que
eu pudesse ter relações sexuais. Fiquei duas semanas no hospital e precisei
ficar em casa três meses de cama – não podia me levantar. Fiz exercícios
vaginais para expandir meu novo canal vaginal. O primeiro sinal da minha
condição é justamente a ausência de menstruação. E você não pode fazer sexo.
Minha cirurgia em Atenas foi revolucionária. A vagina construída pelos médicos
era estreita e pequena e causava imensa dor quando eu tinha relações sexuais.
Precisei expandir meu períneo, uma pequena área abaixo da vagina, com
exercícios.
Estava OK fisicamente, mas não emocionalmente. É um fardo de que
você não pode se livrar. Tive namorados que abusaram de mim emocionalmente. Por
muitos anos não pude ter um relacionamento estável. Sentia raiva, culpa e
vergonha. Lutei contra depressão, ansiedade e ataques de pânico.
O que é a
síndrome de Rokitansky• A
condição se refere a mulheres que nascem com vagina, colo do útero e útero
subdesenvolvidos ou ausentes.•
Mulheres com essa síndrome têm ovários e genitália externa (vulva),
desenvolvendo também pelos púbicos e seios• Um
dos primeiros sinais da síndrome é que uma menina não menstrua• O
sexo também é dificultado porque a vagina é mais curta que o normal
Já faz
10 anos da cirurgia. Ainda me sinto mal, mas não tenho mais vergonha. E sei que
não posso mudar as coisas, preciso aceitar e viver com isso.Mas aprendi uma
lição. Não acredito em Deus, mas vi tudo isso como um chamado: nunca ache que
as coisas estão garantidas.Renasci. Antes de tudo isso eu era uma típica
adolescente, com altos e baixos. Depois disso, realmente amadureci. Cresci
rapidamente. ‘Adoraria ser mãe algum dia, seja biológica ou adotiva. Mãe não é
quem dá à luz, mas quem cria’, diz Joanna.
Quis manter
minha condição em segredo, mas minha mãe contou para parentes. Não foi a melhor
experiência porque as pessoas ficam com pena de você. Não quero que ninguém
tenha pena de mim. Não estou morrendo, não estou em perigo. O olhar piedoso das
pessoas me entristece .Não podia ter tocado no assunto em Atenas – e na Grécia,
de maneira geral – porque as pessoas têm a mente muito fechada. Às vezes me
sentia vivendo da Idade Média.
Não
encontrei grupos de apoio na Grécia ou qualquer pessoa com quem pudesse conversar.
Muitas mulheres com a minha condição têm vergonha. Quando consegui encontrar
algumas dispostas a conversar, vi que elas desapareciam depois, porque se
sentiam envergonhadas. Adoraria ser mãe algum dia, seja biológica ou adotiva.
Mãe não é quem dá à luz, mas quem cria .É muito libertador poder falar sobre
essas coisas. Quero ajudar todas as mulheres que sofram da síndrome, porque fui
ao inferno e voltei. Sei dos problemas que a condição pode causar. Muitas
mulheres cometem suicídio por causa disso. Se não ajudarmos umas às outras,
quem vai?”
Uol

