Sábado, 23 de Abril de 2016.
Presidenta afirma em Nova York que
pode recorrer à suspensão no Mercosul.
Dilma Rousseff na ONU. MIKE SEGAR REUTERS
A presidenta Dilma Rousseff defendeu nesta sexta-feira em Nova
York que o processo de
impeachment iniciado no Congresso contra ela não constitui nada além de
"um golpe" à democracia e que, se for adiante, vai lutar e poderá
recorrer também ao Mercosul. Em um encontro com vários meios de comunicação
depois de seu discurso em uma cerimônia da ONU sobre o clima, a presidenta
salientou que seus opositores buscam retirá-la do poder sem fundamentos legais.
"Apelaria
à cláusula democrática se o Senado aceitar o processo quebrando as normas
democráticas", disse a repórteres na casa do Consulado do Brasil. O
Mercosul tem uma cláusula democrática que pode ser ativada para suspender um
país caso um Governo seja derrubado, como aconteceu no Paraguai em 2012.
Depois
que a Câmara dos Deputados aprovou o processo de
impeachment, é o Senado que deve ratificá-lo em uma votação prevista para
o início de maio. Dilma enfatiza que não há base legal que respalde
o processo de impedimento, uma vez que não é alvo de qualquer processo
criminal. "Não há uma só acusação de corrupção contra mim", disse,
"é incômodo destituir uma pessoa inocente".
Mas
o apoio que teria no grupo de países latino-americanos que compõem o Mercosul
não está claro. O Uruguai tem defendido Dilma –e é o país que ocupa a
presidência rotativa da Unasul e do Mercosul–, mas não conseguiu levar em
frente um texto de apoio à presidenta. O Paraguai, em especial, considera a
dura crise política brasileira (paralela a uma econômica não menos grave) como
um assunto interno sobre o qual o Mercosul tem pouco a dizer.
Tanto esta possibilidade de recorrer ao Mercosul como o
comparecimento ante a imprensa em Nova York fazem parte da estratégia internacional lançada pela equipe da presidentapara
tentar combater o processo fora do Brasil. Em teoria, o impeachment tem como
argumento o uso de táticas irregulares orçamentárias do governo, embora a
votação da Câmara dos Deputados tenha deixado claro que o que ocupa a oposição
é a crítica política contra Dilma. É por isso que Dilma não vê nenhuma base
legal. "Essa é uma questão política, não posso ser destituída por razões
políticas", afirmou.
Aceitará
o resultado do que o Senado disser se optar por retirá-la do poder? Fizeram
duas vezes a mesma pergunta a Dilma, para deixar claro que vai lutar. "Eu
vou lutar com todas as minhas forças para assegurar que a democracia não seja
rompida" no Brasil, disse, reforçando que as eleições democráticas devem
ser respeitadas.
Horas
antes compareceu à cerimônia de assinatura do acordo sobre o clima, alcançado
na cúpula de Paris em dezembro, para garantir ante os 171 países presentes que
o povo brasileiro "trabalha duro, ama a liberdade" e impedirá
"qualquer retrocesso". Enquanto isso, a Presidência ficou a cargo do
vice-presidente Michel Temer, a quem Dilma considera "golpista e
conspirador".
Amanda Mars para o EL PAÍS
Amanda Mars para o EL PAÍS

