Quarta-feira, 11 de maio de 2016.
Rodrigo Duterte no ato final de sua campanha eleitoral. RITCHIE B. TONGO EFE
O ganhador das eleições presidenciais das Filipinas, Rodrigo
Duterte, é um homem que hipnotiza e inquieta na mesma medida. Sua vitória é
fruto das promessas de tolerância zero contra a corrupção, a delinquência e as
drogas – problemas endêmicos no arquipélago asiático –, e suas receitas passam,
literalmente, por matar os bandidos no meio da rua.
“Quando eu for
presidente, darei ordens à polícia e ao Exército para caçar essa gente e matar
todos eles”; “Esqueçam as leis de direitos humanos”; “Vou esquartejar
criminosos diante de vocês se assim quiserem”; “Eu mataria meus próprios filhos
se fossem viciados em drogas” – estas são algumas das mensagens que Duterte
lançou durante a polêmica e tensa campanha eleitoral deste ano. O candidato
prometeu um plano para acabar em seis meses com essas mazelas, o que custaria, segundo
ele, 100.000 vidas. Ao invés de prejudicá-lo, essas propostas lhe valeram 38,6%
dos votos (com 80% das urnas apuradas), para perplexidade do restante da classe
política local.
Muitos filipinos
votaram nele para que leve ao resto do país a linha-dura que impôs à cidade de
Davao, na ilha de Mindanao, da qual foi prefeito durante 22 anos. Essa
metrópole, que já foi uma mancha para a reputação do país, transformou-se sob
Duterte em um lugar próspero. Para erradicar a delinquência, ele usou táticas
como execuções extrajudiciais e patrulhas paramilitares de “esquadrões da
morte”, segundo denúncias de várias ONGs de direitos humanos – algo que ele
próprio admite ser verdade. Dessa campanha surgiram os apelidos “O Castigador”
e “Dirty Harry/Duterte”.
Duterte, de 71 anos,
não tem papas na língua. É polêmico, direto, autoritário, frequentemente
agressivo, e se apresentou como “a última esperança” para os filipinos
indignados com a classe política e as elites do país. Suas mensagens atraem
jovens e idosos, homens e mulheres, e pessoas de diferentes classes sociais que
têm em comum o aborrecimento diante do crescente número de crimes e do aumento
do narcotráfico. Um de seus slogans de campanha foi “A mudança está chegando”.
Muitos o compararam a Donald Trump, o candidato republicano à Presidência dos
Estados Unidos, por causa de suas propostas polêmicas, sua atitude reacionária
contra o establishment e sua capacidade para se conectar com o eleitorado.
Em Davao, a cidade
que, ao lado dos filhos, ele governou durante mais de 20 anos, o sentimento por
ele é quase de adoração. Muitos habitantes o veem como um pai. Seu rosto está
por toda a parte, seja em camisatas que os davaoeños compram em lojas, em fotos
em tamanho real em cafés, bares e restaurantes, ou ainda em enormes cartazes em
qualquer tipo de estabelecimento comercial – além dos panfletos eleitorais que
nestes dias inundaram as cidades do país. Em uma grande bandeira na entrada de
um dos restaurantes mais famosos de Davao, pode-se ler a frase “Duterte City”.
É difícil encontrar alguém que não o apoie.
- Conhece alguém
contra Duterte?
- Aqui em Davao? Não!
Esse diálogo – ou
outro muito parecido com esse – pode se repetir toda vez que se formula a
pergunta entre qualquer círculo social: de professores universitários a
vendedores ambulantes. As execuções extrajudiciais de mais de 1.000 pessoas que
Duterte apoiou – quando não esteve diretamente envolvido como patrocinador –
são ignoradas em muitos casos, ou abertamente aplaudidas. “Aqui vivemos muito
mais seguros com ele. Preferimos não pensar muito neste assunto”, afirma um
importante empresário de origem espanhola. “Duterte mata quem merece morrer”,
diz abertamente Fretchie, uma filipina de 31 anos que votou pela primeira vez
para apoiar a candidatura de seu prefeito.
Nem mesmo uma gafe sua, ao se referir sobre o caso de uma missionária
australiana que foi estuprada e assassinada em 1989 após um motim em uma cadeia
de Davao, atrapalhou Duterte. “Ela era tão bonita... O prefeito deveria ter
sido o primeiro (a abusar dela)”, disse, em alusão ao cargo que ocupava na
época. Diante das numerosas críticas, ele teve que pedir desculpas e admitir
que “às vezes, o pior de mim sai de minha boca”. Em sua campanha, ele tampouco
escondeu sua condição de mulherendo e se gabou de ter várias amantes. Também
defendeu os direitos da população LGBT em um país onde 80% dos habitantes são católicos.
Seu discurso centrado
quase unicamente na questão da segurança e da ordem deixou em segundo plano as
propostas em outras áreas. Em política externa, Duterte afirmou estar aberto a
uma negociação bilateral com Pequim sobre o conflito de soberania de várias ilhas
no Mar do Sul da China, e levantou a hipótese de ambos os países explorarem de
maneira conjunta os recursos dessas águas. Trata-se de uma estratégia oposta à
do atual Governo, que defende uma resposta multilateral que inclui uma denúncia
à Corte Permanente de Arbitragem de Haia. Ele também lançou advertências à
Austrália e aos Estados Unidos, tradicionais aliados das Filipinas.
Pouco se sabe de sua
política econômica, algo que ele diz que vai deixar “nas mãos de seus
assessores e especialistas”. As Filipinas são um dos países asiáticos cuja
economia viveu um comportamento melhor nos últimos cinco anos, com um
crescimento anual médio de 6,3% em meio a uma mínima recuperação da economia
global.
O presidente que
deixa o cargo, Benigno Aquino, tentou na última hora, sem sucesso, uma aliança
entre outros candidatos para evitar a vitória de Duterte, a quem descreveu como
um ditador. “Deveríamos nos lembrar da maneira como Hitler chegou ao poder. Se
você permite que alguém oprima seus semelhantes e não fala nada, será o próximo
a ser oprimido”, alertou em um dos comícios no fim da campanha. Suas palavras
não parecem ter surtido efeito.
El País

