Sábado, 28 de fevereiro-(02) de 2026
Matéria de folhapress/IGOR GIELOW, GUILHERME BOTACINI E ISABELLA MENON.
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Foto: Freme/YouTube /ONU
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Os Estados Unidos, em conjunto com Israel, realizam neste sábado
(28) um devastador ataque contra o Irã na chamada “Operação Fúria Épica”. O
futuro do regime islâmico instalado em 1979 e das relações de poder no Oriente
Médio agora está em suspenso.
Explosões
foram ouvidas no leste e no oeste de Teerã, segundo a mídia iraniana. A agência
Tasnim publicou imagens de uma densa fumaça na capital do país, e o aeroporto
Mehrabad teria sido atingido. O espaço aéreo do país, de acordo com a mesma
agência, também foi fechado.
Ainda
não se sabe o número de vítimas, mas as Forças Armadas de Israel disseram ter
atingido dezenas de alvos.
A
ação ocorreu mesmo depois de ter sido marcada uma quarta rodada de negociações
entre americanos e iranianos acerca do programa nuclear de Teerã, que o
presidente Donald Trump disse querer ver desmantelado completamente.
Horas
depois, Teerã revidou e lançou mísseis em direção a Israel, que foram
interceptados, segundo Tel Aviv. O país persa também atacou bases americanas no
Oriente Médio, incluindo no Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Qatar
—pelo menos uma pessoa morreu em Abu Dhabi, segundo a imprensa local.
O
Ministério das Relações Exteriores iraniano disse que os ataques contra o país
tiveram como alvo uma série de instalações militares e civis em várias cidades,
e que eles acontecem “no meio de um processo diplomático”.
Pela
rede Truth Social, Trump confirmou a operação em um vídeo de oito minutos. “Há
pouco, os militares dos Estados Unidos iniciaram grandes operações de combate
no Irã. O nosso objetivo é defender o povo americano eliminando ameaças do
regime iranianos. Um grupo vicioso de pessoas terríveis”, disse o republicano.
O
ministro de Defesa de Israel também comentou sobre o ataque. “O Estado de
Israel lançou um ataque preventivo contra o Irã para eliminar ameaças”, disse
Israel Katz.
Já
o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, afirmou que o ataque
“criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome seu destino em suas
próprias mãos”.
Em
comunicado, Bibi afirmou que Israel e EUA lançaram uma operação para “eliminar
a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã”. “Chegou a
hora de todos os setores do povo no Irã se livrarem do jugo da tirania e
trazerem um Irã livre e amante da paz”, disse.
Não
se sabe se o ataque atingiu, como era especulado, o líder supremo da teocracia.
À agência de notícias Reuters, uma autoridade do regime iraniano afirmou Ali
Khamenei não está na capital e foi transportado a uma localização segura.
Entretanto,
autoridades americanas, israelenses e persas ouvidas sob condição de anonimato
dizem que uma série de membros do alto escalão do regime foram mortos, e que
Khamenei, assim como o presidente Masoud Pezeshkian, foram alvo.
Se
Khamenei estiver morto, se tornará o primeiro chefe de Estado no poder
assassinado por Washington na história. O iraniano de 86 anos liderava seu país
desde 1989, quando morreu o fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah
Khomeini.
As
negociações ocorridas na quinta-feira (26) na casa do embaixador omani em
Genebra eram consideradas cruciais. Ao fim delas, os mediadores e o chanceler
iraniano, Abbas Araghchi, anunciaram progresso e nova rodada em Viena na semana
que vem.
Na
terça-feira (24), Trump havia reiterado que preferia uma solução diplomática
para a crise, mas que estava pronto para agir e impedir que o Irã obtivesse a
bomba atômica.
Em
junho do ano passado, Trump havia atacado três centrais nucleares do país no
âmbito da guerra de 12 dias que o Irã travava com Israel, principal aliado dos
EUA na região. O republicano se gabava de ter acabado com o programa iraniano
—algo discutível, em especial à luz da nova ação.
O
que se sabe, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica, é que os
iranianos haviam mantido 440 kg de urânio enriquecido a 60%, perto dos 80%-90%
necessários para uma bomba nuclear completa, mas suficientes para talvez 15
artefatos limitados.
Em
janeiro, o presidente dos EUA havia ameaçado atacar sob o pretexto de evitar
morte de manifestantes que participavam dos maiores protestos contra a
teocracia desde sua criação, iniciados pela crise econômica aguda do país, mas
ampliados pela insatisfação generalizada.
Trump
chegou a dizer que “a ajuda estava a caminho”, só que, sem forças mobilizadas
para uma ação maior, voltou atrás. Israel também pediu “mais tempo” para se
preparar para o conflito.
Houve
pressão adicional de aliados árabes do golfo Pérsico, preocupados com o
espraiamento do conflito para o estreito de Hormuz, onde o Irã prometia
retaliar contra 20% do tráfego de petróleo e gás liquefeito do mundo em caso de
ataque.
Ao
mesmo tempo, os EUA reabriram as negociações, que ao fim não deram em nada
porque Trump exigia o fim do programa nuclear e a limitação das capacidades
balísticas iranianas, uma cortesia a Israel. Os iranianos prometeram apenas
reduzir o grau de enriquecimento de seu urânio e renunciar à bomba em troca do
fim de sanções, em termos semelhantes ao do acordo de 2015 abandonado pelo
americano em 2018.
O
destino de Khamenei é desconhecido. Outros líderes hostis a Washington morreram
após ações ocidentais na história recente, mas nunca diretamente. O ditador
iraquiano Saddam Hussein, por exemplo, foi capturado por americanos em 2003,
após a invasão de seu país, mas acabou enforcado após julgamento em uma corte
local três anos depois.
Já
o ditador líbio Muammar Gaddafi, que sobrevivera a um bombardeio americano em
1986, foi morto por rivais numa sarjeta em 2011 após ser destituído na esteira
de uma ação ocidental autorizada pela ONU com participação dos EUA.
Sob
Trump, se havia regra limitando ações diretas, isso mudou. Em 3 de janeiro, o
americano havia capturado o ditador Nicolás Maduro e sua mulher num ataque à
Venezuela, de resto uma aliada do Irã, da Rússia e da China.
Se
a teocracia foi decapitada, o que acontece agora é incerto e depende do escopo
e da duração da operação americana, que pode visar a destruição da cadeia de
comando da Guarda Revolucionária, o principal ente militar da pais.
Do
ponto de vista sucessório, no caso da ausência do líder é prevista a criação de
uma junta formada pelo presidente do país, Masoud Pezeshkian, o chefe do
Judiciário e um membro do Conselho dos Guardiões, órgão com 6 clérigos e 6
juristas.
O
grupo governa até a reunião dos 88 membros da Assembleia de Peritos, clérigos eleitos
mas que precisam do aval do Conselho, que definirá o nome do sucessor de
Khamenei. Com a suspeita morte em acidente aéreo do presidente radical Ebrahim
Raisi, em 2024, o favorito era um dos filhos de Khamenei, Mojtaba, 56.
Nada
disso é provável com o país sob ataque. A chance de a Guarda tomar as rédeas,
se sobreviver de forma organizada, não é desprezível também, tornando o
autocrático Estado religioso numa ditadura militar sob linhas semelhantes.
Outra
opção é uma guerra civil, dado que não está nos planos e na capacidade
mobilizada de Trump a hipótese de uma ação terrestre para empoderar algum grupo
no comando.
Este
era um temor de ativistas, que buscaram eleger a figura do filho do xá deposto
pelos aiatolás, Reza Pahlavi, como nome consensual, o que parecia ilusório dado
o distanciamento do príncipe homônimo, radicado nos EUA.
O
príncipe herdeiro do Irã afirmou neste sábado que a ajuda esperada dos EUA
chegou. “Trata-se de uma intervenção humanitária e seu alvo é a República
Islâmica, seu aparato de repressão e sua máquina de matar, não o grande país e
nação Irã”, disse ele, também pelas redes sociais.
Por:
*folhapress/IGOR GIELOW, GUILHERME BOTACINI E ISABELLA MENON

