Domingo, 16 de agosto-(08) de 2026
Quando o tempo diante das telas desses dispositivos
ultrapassa determinados limites e passa a comprometer outras áreas da vida.
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Excesso de telas sobrecarrega o cérebro e afeta saúde
mental dos adultos |
O uso de telas faz parte da rotina de milhões de
brasileiros. Seja para trabalhar, estudar, se informar ou se comunicar,
celulares, computadores e tablets se tornaram
ferramentas indispensáveis. No entanto, quando o tempo diante desses
dispositivos ultrapassa determinados limites e passa a comprometer outras áreas
da vida, os impactos podem ser significativos para a saúde mental e o
bem-estar.
Segundo Cesar Rathke, psiquiatra, médico de família,
nutrólogo, e professor de Psiquiatria na Afya Ciências Médicas da
Paraíba, o uso de telas passa a ser preocupante quando começa a comprometer
outras áreas da vida.
“O uso é excessivo quando passa a ocupar o tempo que seria
dedicado ao sono, à convivência social, à atividade física ou ao lazer sem
telas, gerando sofrimento ou perda de controle. Para quem trabalha com
tecnologia, a chave é a separação: o problema não está no tempo de trabalho
produtivo, mas no tempo morto de rolagem infinita ao longo do dia,
principalmente fora do expediente”, explica.
Cérebro em estado constante de alerta
A hiperconectividade tem se tornado uma
característica da vida moderna. Notificações, mensagens, vídeos curtos e
atualizações constantes fazem com que o cérebro permaneça em estado permanente
de vigilância, o que pode favorecer o desenvolvimento de sintomas emocionais e
cognitivos.
De acordo com o especialista, a exposição contínua às redes
sociais também pode influenciar a percepção que o indivíduo tem de si e da
própria rotina. A comparação com padrões de vida idealizados e o contato
permanente com diferentes estímulos podem afetar o bem-estar emocional e a
capacidade de concentração.
“Há uma relação direta e cientificamente comprovada. A hiperconectividade mantém
o cérebro em estado constante de alerta, elevando os níveis de estresse e
ansiedade. O excesso de estímulos e a comparação constante com a vida
‘perfeita’ dos outros também alimentam sintomas depressivos, irritabilidade e
uma profunda dificuldade de manter o foco nas tarefas do dia a dia”, destaca.
O impacto dos conteúdos rápidos
O consumo frequente de vídeos curtos, feeds infinitos e
conteúdos produzidos para prender a atenção por poucos segundos também tem
consequências importantes para o funcionamento cerebral. Isso acontece porque
essas plataformas estimulam mecanismos de recompensa que favorecem a busca
constante por novos estímulos.
“Conteúdos rápidos liberam pequenas doses rápidas de
dopamina, o neurotransmissor da recompensa. O cérebro se acostuma a essa
gratificação instantânea e se cansa, pois precisa processar um volume
gigantesco de informações superficiais em pouco tempo”.
Segundo o psiquiatra, esse processo pode tornar atividades
que exigem atenção prolongada cada vez mais difíceis. “Como resultado, tarefas
que exigem esforço prolongado e paciência, como ler um livro ou trabalhar em um
projeto complexo, tornam-se exaustivas e difíceis. Isso vai transformando o
comportamento, desorganizando o funcionamento e reduzindo a capacidade de lidar
com o cotidiano, além de tornar o indivíduo pouco resiliente e refém de doses
constantes de alívio e prazer”, acrescenta o psiquiatra.
Sinais de alerta
Embora muitas pessoas utilizam telas durante boa parte do
dia, alguns comportamentos podem indicar que a relação com a tecnologia está se
tornando prejudicial. Entre os principais sinais de alerta apontados pelo
psiquiatra estão:
• Sensação
de frustração ou vazio após usar o celular;
• Irritabilidade
ao ficar sem internet ou ser interrompido;
• Necessidade
constante de verificar o aparelho, mesmo sem notificações;
• Procrastinação
frequente;
• Prejuízos
ao sono;
• Desinteresse
por atividades presenciais e convivência social;
• Aumento
progressivo do tempo de uso das telas;
• Redução
do tempo dedicado a estudos, exercícios físicos e autocuidado.
Quando esses sinais passam a comprometer o desempenho
profissional, os relacionamentos ou a saúde física e emocional, é importante
reavaliar os hábitos digitais e buscar estratégias para recuperar o equilíbrio.
Sono prejudicado e cansaço acumulado
O período da noite merece atenção especial. O uso de
celulares e outros dispositivos antes de dormir interfere diretamente nos
mecanismos naturais do sono e pode provocar uma série de consequências para a
saúde mental.
“A luz azul emitida pelas telas inibe a produção de
melatonina, o hormônio do sono, enganando o cérebro e fazendo-o achar que ainda
é dia. Além disso, a hiperestimulação, causada pela luz, cores, diversos
conteúdos e sensações de prazer, acelera o cérebro à exaustão”, explica Cesar
Rathke.
O especialista ressalta que notícias estressantes, mensagens
e demandas profissionais fora do expediente também dificultam o relaxamento
necessário para uma boa noite de descanso. “Essa incapacidade de se desconectar
impede o descanso mental necessário para o cérebro limpar as toxinas do dia e
consolidar memórias, prejudicando diretamente o humor e a capacidade mental”.
Como construir uma relação mais saudável com a tecnologia
Apesar dos riscos, o objetivo não é eliminar o uso da
tecnologia e das telas, mas aprender a utilizá-la de forma consciente e
equilibrada. Pequenas mudanças na rotina podem ajudar a reduzir a dependência
dos dispositivos e preservar a saúde mental.
Entre as principais recomendações de Cesar Rathke estão:
• Utilizar
ferramentas de monitoramento e controle do tempo de tela;
• Estabelecer
horários e ambientes livres de tecnologia;
• Evitar
o uso do celular antes de dormir;
• Desativar
notificações não essenciais;
• Buscar
atividades de lazer sem telas;
• Reservar
momentos do dia para descanso mental e contato com o ambiente ao redor.
“Nosso cérebro não foi projetado para hiperestimulação com
doses frequentes de dopamina. Respeite sua biologia e a melhora virá”, conclui
o especialista.
Por: Mônica Melo com ClickPB

