Quarta-feira, 28 de outubro de 2020
Matéria do Site Agência Brasil
Holótipo de Incogemina nubila, Fóssil raro de inseto voador é encontrado na Bacia do Araripe, no Ceará. © Frederico Falcão Salles/ Universidade Federal de Viçosa/Direitos reservados
Um fóssil de inseto voador
foi encontrado na Formação do Crato, na Bacia do Araripe, no sul do estado do
Ceará. Considerado raro pelos pesquisadores, esse é o segundo fóssil de adulto
da família Oligoneuriidae a ser catalogado no
mundo.
A
descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito
Santo (UFES), Universidade Regional do Cariri (URCA) e da Universidade Federal
de Viçosa (UFV). O artigo que descreve o achado foi publicado nesta
quarta-feira (28) na PLOS One, revista
científica de acesso livre disponível apenas online, publicada pela Public
Library of Science. Assinam o artigo Arianny P. Storari, Taissa Rodrigues,
Antônio Á. F. Saraiva e Frederico F. Salles.
O
fóssil é um representante da ordem Ephemeroptera, também
conhecidos como efêmeras, que são insetos voadores que vivem poucos dias
durante sua vida adulta, às vezes até minutos. Durante a sua fase larval, as
efêmeras são aquáticas. Ele foi coletado no município de Nova Olinda por uma
equipe de paleontólogos da Universidade Regional do Cariri.
Os
pesquisadores acreditam que as informações obtidas por meio da análise desses
insetos podem ajudá-los a conhecer o ambiente em que essa espécie viveu e até
os estresses climáticos que essas espécies podem ter experimentado,
principalmente suas larvas aquáticas.
“No
caso desse trabalho, conseguimos entender muito mais da evolução desse grupo
específico de insetos, por exemplo, como suas características anatômicas se
modificaram ao longo do tempo, ou desde quando o grupo existe. Mas, em
trabalhos onde usamos os fósseis para entender o ambiente pretérito, podemos
chegar a conclusões até sobre o clima no passado, dependendo da análise feita.
Ao ter dados históricos sobre o clima pretérito, podemos compreender tendências
futuras”, explicou a primeira autora do estudo Arianny Pimentel Storari,
doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da UFES. A
bióloga faz parte do Laboratório de Paleontologia da UFES e tem experiência em
insetos aquáticos fósseis e viventes.
Segundo
os pesquisadores, muitos representantes do grupo das efêmeras podem ser
considerados importantes bioindicadores de qualidade da água, já que são
sensíveis às variações do meio onde vivem.
Trata-se
de um inseto adulto que representa, além de uma nova espécie, um novo gênero e
uma nova subfamília, dadas suas peculiaridades.
A
rocha onde o fóssil foi encontrado é datada do Cretáceo Inferior, entre 113 e
125 milhões de anos atrás, quando a África e a América do Sul ainda estavam se
separando.
As
principais peculiaridades do inseto estão na distribuição das veias das asas,
que são as nervuras da asa. “Essa distribuição combina um padrão onde algumas
veias tendem a se juntar, que está presente na maioria dos representantes da
família Oligoneuriidae (família
a qual esta nova espécie pertence), esse padrão de junção de veias se mistura
também com um padrão considerado ancestral onde as veias das asas não são
reduzidas, que está presente no restante das efêmeras”, expliocu Arianny.
Espécie Rara: O
fóssil, que foi incluído na família Oligoneuriidae, foi
nomeado Incogemina
nubila, que significa geminação incompleta em latim, referente ao
padrão das veias de suas asas. O termo nubila significa
nublado, dada a coloração acinzentada do calcário em que o fóssil se
preservou.
Segundo
o entomólogo Frederico Salles, a distribuição das veias das asas de Incogemina combina
um padrão no qual algumas veias longitudinais tendem a se juntar, como na
maioria dos representantes da família Oligoneuriidae, com um
padrão ancestral, típico das demais efêmeras. “Essa é principal característica
que faz essa nova espécie ser única”, destacou.
Os
fósseis dessa ordem de insetos aquáticos são abundantes na Formação Crato,
porém aqueles da família Oligoneuriidae, em
particular, são muito raros. Esse é apenas o segundo fóssil de um adulto desta
família encontrado no mundo, e os pesquisadores constataram que um outro fóssil
conhecido e reportado na literatura também representa a espécie Incogemina
nubila.
“Uma
das explicações para a escassez de fósseis desse grupo pode se dar pelo seu
hábito de vida. Durante a fase jovem, a maioria das larvas da família Oligoneuriidae vivem
em ambientes com fluxo d’água corrente. Esse tipo de ambiente não é propício
para a preservação de um inseto tão delicado, dado que a correnteza destruiria
suas partes mais sensíveis, dificultando a fossilização”, explicou a
pesquisadora Arianny Storari.
A
paleontóloga Taissa Rodrigues destaca que o espécime no qual Incogemina
nubila foi baseado é um dos poucos fósseis da Bacia do Araripe
do qual se conhece a proveniência.
“Apesar
de outras espécies de efêmeras serem conhecidas para esse depósito fossilífero,
elas foram coletadas de forma ocasional, e não há nenhuma informação sobre o
local do achado. Como conhecemos o local onde a Incogemina nubila foi
encontrada, é possível planejar coletas para buscar mais fósseis dessa espécie
rara”.
“Agora
que a primeira escavação controlada na Formação Crato foi realizada pela equipe
do Laboratório de Paleontologia da URCA, certamente novas informações acerca da
evolução das efêmeras devem surgir, além de dados sobre o ambiente pretérito da
Formação Crato, área de intensa exploração do calcário laminado”, disse o
paleontólogo Álamo Saraiva.
Por: Agência
Brasil