CRISTIANE
GERCINA SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Diferentemente da campanha de 2018, quando a
reforma da Previdência era assunto recorrente entre os candidatos à Presidência
da República, o tema tem ficado de fora em entrevistas e debates nas eleições
de 2022.
A Folha de S.Paulo analisou o
que dizem os planos de governo dos quatro candidatos que mais pontuam nas
pesquisas eleitorais -Lula (PT), Jair Bolsonaro (PL), Ciro Gomes (PDT) e Simone
Tebet (MDB)- e enviou perguntas aos candidatos sobre Previdência, INSS (Instituto
Nacional do Seguro Social) e salário mínimo.
Dos quatro presidenciáveis,
três se posicionaram. Lula, Ciro Gomes e Simone Tebet acrescentaram informações
além das que estão em seus planos de governo. A campanha de Jair Bolsonaro
informou que o candidato não falaria, assim como nenhum representante, mesmo
diante da insistência da reportagem.
O QUE DIZEM OS PRESIDENCIÁVEIS
SOBRE PREVIDÊNCIA E SALÁRIO MÍNIMO
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA (PT)
A valorização do salário mínimo, com reajuste acima da inflação, é um dos
primeiros temas apresentados no plano de governo de Lula. Implantada em seu
primeiro mandato, a medida, que vigorou nos governos petistas, determina
reajuste que leva em conta a inflação do ano anterior mais o crescimento do PIB
(Produto Interno Bruto) de dois anos antes.
Essa política impacta
diretamente os gastos públicos, já que o salário mínimo é o piso das
aposentadorias e pensões, além de ser o valor pago a quem recebe BPC (Benefício
de Prestação Continuada) e outros benefícios sociais, assistenciais e
previdenciários, e, por isso, divide especialistas.
Em nota, a campanha de Lula
rebateu as críticas e reafirmou que pretende retomá-la. “Evidentemente, o
aumento real do salário mínimo impacta as despesas do governo. Mas, como já
demonstramos no passado recente, como parte de uma estratégia geral para a
economia, com responsabilidade fiscal, essa deve ser uma forma adequada de
induzir o crescimento do mercado interno e, portanto, das receitas”, diz.
O candidato afirma que pretende
rever pontos da reforma da Previdência considerados controversos e que figuram
em ações no STF (Supremo Tribunal Federal).
Dentre as alterações que podem
ser revistas estão a idade mínima na aposentadoria e os redutores da pensão por
morte.
“O objetivo da aposentadoria
especial é reduzir esse tempo de exposição a um nível que preserve a saúde e a
vida das pessoas, que devem ter o direito à aposentadoria após 15, 20 ou 25
anos de trabalho nessas atividades. Com a reforma, ninguém pode aposentar antes
de 55 anos de idade, ou seja, essa exigência anula o objetivo de proteção da
saúde e da vida desses trabalhadores”, diz.
Sobre a pensão por morte, o
candidato fala em “rever ou até mesmo revogar” as regras, classificadas como
cruéis.
No plano de governo, a inclusão
de novas categorias no sistema previdenciário também é abordada, o que inclui
especialmente os trabalhadores de aplicativos, como motoristas e entregadores.
JAIR BOLSONARO (PL)
Responsável pela reforma da Previdência que, do ponto de vista fiscal, teve
efeito até maior do que esperado, Jair Bolsonaro (PL) não debate o tema em seu
plano de governo nem com a reportagem. A menção ao INSS está apenas em um ponto
que trata sobre o uso de tecnologia, no qual o documento destaca os serviços
ofertados no aplicativo ou site Meu INSS.
Também não há menção sobre
política para o salário mínimo. Seu governo, porém, seria o responsável por
renovar a política de valorização do salário mínimo, mas não o fez. Atualmente,
o piso dos salários e das aposentadorias recebe a correção da inflação a cada
ano.
Procurada, a campanha de Bolsonaro informou que o candidato não falaria e que
não havia quem pudesse responder a questões direcionadas sobre os temas.
CIRO GOMES (PDT)
O plano de governo de Ciro Gomes não trata diretamente de assuntos como
Previdência, INSS e salário mínimo, mas, ao responder aos questionamentos da
reportagem, o pedetista afirmou que irá implementar política própria de
valorização do salário mínimo e pretende fazer uma nova reforma da Previdência.
Os reajustes deverão ser
progressivos, acima da inflação, mas vão depender de resultados de reformas
fiscal, tributária e previdenciária que forem aprovadas no Congresso. “Não
definimos ainda os percentuais ou a regra de reajuste, mas queremos que o
salário mínimo atinja o valor de R$ 1.600 o mais breve possível”, diz.
Para a Previdência, o candidato
propõe uma reforma em que o sistema previdenciário seja dividido em três pilares.
O primeiro deles seria a renda mínima, que pagaria R$ 1.000 a brasileiros
considerados na linha de pobreza, mas sem alterar o BPC e a aposentadoria
rural, que já paga um salário mínimo atualmente.
O segundo pilar seria manter o
sistema atual, com as regras de aposentadoria atuais para quem trabalha e
contribui, e o terceiro seria a capitalização, uma espécie de previdência
privada parafaixa de renda superior a um determinado valor, a ser definido com
o Congresso. Essa previdência privada será voluntária.
“As novas regras se aplicarão
apenas a quem começar a trabalhar após aprovada a reforma. Desse modo,
conseguiremos equilibrar as contas da Previdência a médio prazo sem gerar
pressões futuras que ocorrerão indubitavelmente no atual regime”, afirma.
Sobre aposentadoria especial,
ele diz que manterá o direito e, na pensão por morte, as regras poderão ser
revistas em sua reforma.
SIMONE TEBET (MDB)
A candidata do MDB, Simone Tebet, que viu suas intenções voto crescerem nas
pesquisas presidenciais após o debate entre candidatos e o início oficial da
campanha eleitoral, deixou claro, em seu plano de governo, que o salário mínimo
terá poder de compra preservado, com reajustes anuais “baseados pelo menos na
inflação”.
À reportagem, afirmou que
“reajustar pela inflação deve ser a regra básica e permanente” caso seja
eleita.
Sobre a reforma da Previdência,
na qual Tebet votou favoravelmente, ela afirma que seu voto a favor foi porque
entendeu que a reforma “manteve os direitos adquiridos e reduziu as disparidades
do sistema, tornando-o menos desigual, para os novos beneficiários”.
“Os valores dos benefícios
menores, correspondentes à grande maioria dos beneficiários, ficaram totalmente
preservados. A candidata pensa que a reforma deveria ser revista para aprofundar
esta direção, não sendo favorável a retroceder no que já foi alcançado”, diz,
em nota.
Para fomentar o sistema
previdenciário, Tebet propõe em seu plano de governo reduzir a contribuição
previdenciária para a faixa de um salário mínimo para todos os trabalhadores.
“Essa seria uma forma de estimular a formalização”, afirma o texto.
As regras de aposentadorias
especiais e pensão por morte não devem ser alteradas, mas a candidata não
descarta uma revisão “para aprofundar” o que foi feito, sem “retroceder” no que
já foi alcançado, diz.
Sobre a judicialização da idade
mínima na aposentadoria especial, Simone Tebet diz que recorrer ao Judiciário é
muito frequente neste tipo de benefício, pois os segurados querem se aposentar
mais cedo.
“E agora, depois da reforma,
recorrem ao STF para preservar a regra antiga e, assim, garantir no atacado a
antecipação da concessão das suas aposentadorias. Evidentemente, vamos aguardar
e respeitar a decisão soberana da Justiça”, afirma em nota.
No caso das pensões por morte,
ela afirma que do critério de redução de 40% se aplica apenas a um pequeno
número de benefícios, maiores que 1,6 salários mínimos e que “a redução do
valor do benefício quando se transforma em pensão é adotada
internacionalmente”.
“A candidata não pretende rever
a regra, que está em consonância com a direção geral da reforma, de redução das
disparidades”, diz.
Por: Folhapress