Quarta-feira, 08 de abril-(04) de 2026
Representante americano disse que sua decisão se baseou no
compromisso de que o Irã reabra Hormuz durante a trégua
![]() |
| (Foto: Elizabeth Frantz/Reuters) |
Após dizer que “uma civilização inteira morrerá nesta noite”
e ameaçar obliterar a infraestrutura civil do Irã, Donald Trump recuou
novamente e aceitou nesta terça-feira (7) uma proposta feita pelo Paquistão
para um cessar-fogo de duas semanas na guerra iniciada em 28 de fevereiro pelos
Estados Unidos e Israel.
Em postagem na rede Truth Social, o americano disse que sua
decisão se baseou no compromisso de que o Irã reabra Hormuz durante a trégua
-Teerã disse que o fará por duas semanas “em coordenação com as Forças Armadas”
iranianas.
“Esse será um cessar-fogo duplo”, escreveu Trump, visando
acalmar os ânimos dos países árabes sob ataque de Teerã no golfo Pérsico.
Funcionários da Casa Branca afirmaram à emissora CNN e à agência Reuters que os
israelenses também farão parte da trégua. Um militar de Tel Aviv ouvido pelo
veículo Ynet detalhou que o cessarfogo também inclui o Líbano.
“O motivo pelo qual eu estou fazendo isso é que nós já
atingimos e excedemos nossos objetivos militares”, afirmou o republicano,
dizendo procurar um “acordo definitivo de paz de longo prazo com o Irã e paz no
Oriente Médio” nesses 15 dias.
Ele disse que a contraproposta de dez pontos que o Irã
enviou na segunda (6), que ele havia considerado insuficiente, será “uma base
para negociar”. O texto do americano não trata em detalhes do ponto central do
ataque ao país -isto é, o programa nuclear iraniano e seus sistemas de mísseis
balísticos.
O regime iraniano, por sua vez, confirmou que as negociações
com os EUA acontecerão na capital paquistanesa, Islamabad, a partir da próxima
sexta-feira (10). O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, publicou o
convite às delegações.
Segundo a mídia local, a proposta do Irã inclui “trânsito
controlado pelo estreito de Hormuz, coordenado com as Forças Armadas iranianas,
o fim da guerra contra o Irã e grupos aliados, e a retirada das forças de
combate dos EUA de todas as bases regionais”.
O país persa reforçou que as negociações não significam o
fim imediato da guerra e que este somente será aceito quando os detalhes do
plano de dez pontos forem finalizados. Ainda de acordo com a imprensa, o texto
também prevê a “suspensão de todas as sanções, o pagamento de indenização
integral ao Irã e a liberação de todos os ativos iranianos congelados”.
O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou
momentos depois que sua proposta aos EUA incluiu a aceitação do enriquecimento
de urânio. O órgão ainda reforçou que a guerra não terminou: “Nossos dedos
estão no gatilho e, assim que o inimigo cometer o menor erro, ele será
respondido com toda a força.”
O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, disse que o país
suspenderá seus ataques se as operações contra ele cessarem. Ainda reiterou que
o trânsito seguro por Hormuz será possível durante estas duas semanas em
coordenação com as Forças Armadas iranianas. Um funcionário militar americano
afirmou ao jornal The New York Times que os ataques dos EUA ao país já foram
interrompidos.
Ainda de acordo com o New York Times, que também ouviu
autoridades iranianas sob condição de anonimato, o Irã aceitou a proposta do
Paquistão após intervenção da China, que pressionou Teerã a desescalar o
conflito. O cessarfogo teria sido aprovado pelo novo líder supremo, o aiatolá
Mojtaba Khamenei.
Na prática, o prazo para que a teocracia reabra o estreito
de Hormuz para o trânsito de 20% do petróleo e gás natural liquefeito do mundo
foi adiado pela quinta vez. O presidente passou o dia sob fogo por sua frase
com tintas genocidas, que foi criticada até por aliados.
O anúncio foi feito pouco mais de uma hora antes da
expiração do prazo que Trump havia dado para que Teerã aceitasse a medida, sob
pena de destruir pontes e usinas de energia do país “em quatro horas”, segundo
havia dito na véspera.
O regime dos aiatolás havia rejeitado a proposta por sugerir
uma trégua, e não uma solução para a guerra lançada pelos Estados Unidos e
Israel, que já dura mais de cinco semanas. Mas as conversas continuaram.
A decisão reafirma a mística do acrônimo TACO, ou Trump
Sempre Amarela nas iniciais em inglês. É um risco ocupacional da tendência do
americano de repetir sua estratégia negocial na diplomacia: elevar ameaças e
fazer imposições impossíveis ao adversário para ver o que consegue ganhar.
No fim de semana, o republicano publicou uma postagem
inaudita para um presidente dos EUA, cheia de palavrões e xingando os iranianos
de “malucos do c…”. Na segunda (6), afirmou que poderia destruir o Irã em uma
noite e, nesta terça, pintou sua guerra com cores de um extermínio, numa frase
tão malvista que até o papa Leão 14, primeiro pontífice americano, a condenou.
Só que a teocracia persa, que já demonstrou capacidade
adaptativa enorme ante a decapitação a que foi submetida, não caiu na tática.
Insistiu em que não pode negociar sob bombas e buscou negar que estivesse
disposta a ceder, embora isso estivesse subentendido no curso de negociações
mediadas pelo Paquistão.
Elas pareciam ter avançado um pouco ao longo da terça, mas
todos os beligerantes resolveram elevar a temperatura militar do conflito para
se posicionar para novas conversas.
Os EUA atacaram alvos militares na estratégica ilha de
Kharg, de onde saem 90% do óleo iraniano em tempos mais normais. O local é um
alvo primários de qualquer ação anfíbia ou aerotransportada dos americanos,
embora analistas digam que os riscos de baixas são enormes dada a posição
exposta junto à costa do Irã.
Seja como for, Trump deslocou 5.000 fuzileiros navais e um
número incerto de paraquedistas para a região. Não é nada que garanta uma
invasão terrestre do rival, mas sim para operações mais focadas.
Apesar do poderio superior, os americanos não têm recursos
para assegurar o trânsito de petroleiros e afins por Hormuz. Também nesta
terça, os aliados de Teerã Rússia e China vetaram uma resolução no Conselho de
Segurança da ONU que abriria o caminho para uma operação legal com esse fim.
Já Israel fez inéditos ataques a ferrovias civis do rival,
matando ao menos duas pessoas no processo, e atingiu uma petroquímica produtora
de insumos para explosivos em Shiraz.
A ação, um dia após outra petroquímica iraniana ser atacada,
levou a uma retaliação contra um complexo semelhante na Arábia Saudita. Teerã
voltou a advertir que iriam empregar seus mísseis e drones contra o sistema
energético do golfo Pérsico, mantendo a tensão no mercado em alta.
O ataque aos sauditas azedou as negociações tocadas pelos
paquistaneses, que têm um acordo militar com o reino desértico, mas
aparentemente não foi suficiente para demover Trump de seu novo adiamento.
Enquanto isso, os iranianos também atacaram um petroleiro
perto de Omã, edifícios no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos, onde duas
pessoas foram mortas. À noite, voltou a bombardear alvos nos vizinhos.
A rotina de bombardeio a Israel também seguiu, com drones e
mísseis disparados de lá, a partir de bases houthis no Iêmen e do Líbano, onde
posições do Hezbollah também foram atacadas pelo Estado judeu.
Por: Folhapress

