Terça-feira, 16 de junho-(06) de 2026
Investigação aponta que mulheres eram mantidas por
dívidas, metas de consumo e controle da rotina.
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| Reprodução / Auditoria Fiscal do Trabalho |
Uma operação contra o tráfico de pessoas no Nordeste
resgatou 18 mulheres submetidas a condições análogas à escravidão em
estabelecimentos de exploração sexual na Paraíba.
Ao todo, 22 mulheres foram identificadas e resgatadas.
Quatro vítimas foram encontradas em Goiana, em Pernambuco, e as outras 18 em
municípios paraibanos, onde se concentrava a maior parte das atividades do
grupo investigado.
Os dados da operação foram divulgados nesta terça-feira (16)
pela Auditoria-Fiscal do Trabalho. A ação é resultado da Operação Donos da Noite, deflagrada na
última quarta-feira (10) pela Polícia Federal, e
envolve a atuação do órgão responsável pela caracterização do trabalho análogo
à escravidão e pelo resgate das trabalhadoras.
As investigações ocorreram em seis estabelecimentos nos
municípios de Guarabira, Pedro Régis e Alagoa Grande, na Paraíba, além de
Goiana, em Pernambuco, e Nova Cruz, no Rio Grande do Norte. Neste último, o
estabelecimento estava fechado no momento da fiscalização, mas foram
encontrados cadernos de controle de dívidas, malas e outros indícios da
exploração das trabalhadoras.
Durante as fiscalizações, os auditores fiscais identificaram
que os estabelecimentos eram administrados por uma mesma empregadora e membros
da família dela.
A empregadora apontada como líder da organização foi
formalmente notificada pela Auditoria-Fiscal do Trabalho pela caracterização do
trabalho em condições análogas à escravidão. A fiscalização determinou a
interrupção das atividades, o pagamento dos direitos trabalhistas, o custeio do
retorno das vítimas às suas cidades de origem e a cessação de todas as práticas
identificadas.
Como funcionava o esquema
O controle sobre as mulheres era mantido por meio de um
sistema de dívidas: as trabalhadoras acumulavam cobranças por alimentação,
produtos de higiene, roupas, perfumes, procedimentos estéticos e lavagem de
roupas.
Segundo relatos colhidos pela auditoria, os valores eram
definidos unilateralmente pelos responsáveis pelos estabelecimentos, sem
transparência sobre os débitos lançados ou os valores efetivamente recebidos
pelas mulheres. Em alguns casos, as vítimas encerravam as semanas sem receber
nenhum pagamento.
A Polícia Federal informou que os responsáveis pelo esquema
também estabeleciam metas para as mulheres: o consumo de 40 doses de bebidas
alcoólicas por semana e 20 programas sexuais diários. O descumprimento das
metas resultava em multas financeiras, que eram incorporadas ao sistema de
dívidas.
Câmeras de vigilância e pressão psicológica eram usadas para
controlar a circulação das trabalhadoras. Segundo os relatos, algumas mulheres
eram impedidas de sair dos estabelecimentos por causa das dívidas acumuladas.
Os auditores constataram ainda jornadas que chegavam das 14h
às 4h da manhã nos dias úteis. Nos fins de semana, as mulheres iniciavam as
atividades ao meio-dia e permaneciam até a saída do último cliente, sem
autonomia para definir horários ou períodos de descanso.
Durante a fiscalização, foram colhidos relatos de estupros,
abusos sexuais e consumo excessivo de bebidas alcoólicas e outras substâncias
associados ao cumprimento das metas impostas.
Nos locais fiscalizados, as mulheres viviam e trabalhavam em
quartos coletivos, com instalações sanitárias precárias. Em alguns casos, o
mesmo espaço era usado como alojamento e local de exploração sexual.
As investigações permanecem em andamento. A Auditoria-Fiscal
do Trabalho informou que outras vítimas exploradas pela mesma organização
poderão ser identificadas ao longo da fiscalização.
Por: Janinne Vivian com Jornal da Paraíba

